Accueil du site > Saison 2007-08 > Auteurs > Extraits > A terça-fera no Modelo Bonjour

A terça-fera no Modelo Bonjour

de Mickael De Oliveira


Terça-feira eu vou lá no primeiro comboio do dia e depois à noite no sentido contrário. Impossível mais. A vida é minha.

Um dia surripiado ao resto e é assim.

Acordo-o pequeno-almoço e abrir persianas tenho a chave entro sem muito barulho por vezes ele ainda está na cama e ouço-o dizer O que é que deseja como se ele não me reconhecesse às vezes ele já está a pé e vê-me entrar. Está na sua poltrona e vê-me chegar.

Ele olha-me de cada vez como se fosse a primeira. Olha-me da mesma forma com o seu olhar Meu Deus o que é isto ?

Não diz Bom dia ou Como estás hoje não. Diz com os olhos Como é possível ?

Não se habitua.

Tempo passado sem voltar a minha casa nesta cidade onde de agora em diante ele está sozinho. Eu digo a minha casa. Apesar de todo o tempo que se escapou.

A minha casa digo quando vou a casa dele. Poderia mesmo dizer regresso a minha casa. Eu vivi muito tempo lá nessa cidade. É a cidade onde vivi muito tempo no tempo em que era criança. Alguns aqui mesmo lembram-se de mim de mim criança entenda-se.

Lembro-me do dia em que tal qual vim apresentar-me a eles. Ela e ele. Os dois vivendo ainda não somente ele com a sua solidão.

Lembro-me desse dia.

A primeira vez que se chega mudada assim transformada tal qual é qualquer coisa atravessar as ruas e os sítios que conhecíamos antes. Tudo vos observa as pessoas as paredes as pedras. Encaram-nos. Não. Encarar é para a cara não só a cara ? Antes da cabeça aos pés diria. Observada em todos os sentidos revirada sacudida para encontrar sem dúvida aquela coisa errada.

Sempre fui ela mas bem no interior agora os daqui a apreciarem-me as curvas aqueles que me conheciam dantes. A tentarem refazer.

Ela e ele sentados lado a lado à mesa da sala de jantar quando eu entrei tal qual pela primeira vez ela como que atordoada ele levantou-se de seguida e passou à sala do lado é a cozinha que fica ao lado.

A porta a bater nas minhas costas fechando-se atrás dele e nós as duas sozinhas a ficarmos no silêncio. Que dizer que palavras dizer para fazer como se nada.

Talvez então eu digo é assim. E que sim ela responde.

Fico um bom momento um momento que parece durar mas será que dura realmente e depois vou-me embora nos meus tacões novos vacilante.

Terça-feira eu marquei como o dia. Não sei bem porquê. É o dia em que venho para fazer tudo aquilo que ele não faz. Tudo aquilo a que ele não liga. Faço-lhe a limpeza lavo-lhe a louça lavo-lhe a roupa. Arrumo. Limpo e arejo.

Ele fica ali sem dizer grande coisa. Ele examina-me em detalhe. Segue-me de uma divisão para a outra. Eu faço de conta como se.

Ele diz João Pedro.

Bom dia João Pedro.

Obrigado João Pedro.

Não digo-lhe.

Maria Pedro digo-lhe.

Ele diz João Pedro ponto é tudo.

Maria Pedro de agora em diante digo-lhe e repito. Repete eu digo. Di-lo eu digo-lhe. Vá eu digo.

Maria Pedro. Maria Pedro de acordo ?

Ele sorri.

Ele diz tenho sede.

Ele diz passa-me um copo de água.

Ele sempre fez isto.

Ordenar comandar estender o braço sem sequer abrir a boca para que o venham servir.

Eu trago-lhe um copo de água vou à torneira três passos e regresso três passos nada de complicado nada de muito cansativo ele poderia fazê-lo ele mesmo.

Ainda não está incapaz.